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terça-feira, junho 23, 2009

Longe de Ti...


"Longe de ti, tudo parou, tudo morreu
e eu num lugar sem vida,
perdida no mundo ,
só me resta chorar eternamente a tua ausência.
Quem sabe com minhas lágrimas possa um dia
se tornar um rio e ali na minha imaginação
poderei ver o teu reflexo?
Ou talvez no leito deste rio
descançarei eternamente,
onde as águas me levarão a um lugar distante
e no sono profundo poderei um dia
me encontrar aos teus braços outra vez…"

2 comentários:

Menina do Rio disse...

Quem sabe tuas lágrimas imaginem-se um rio que te levará ao teu amor? Quem sabe?...

Beijinho pra ti

entremares disse...

Talvez um pouco mais de... azul.
Sim, definitivamente. E carregar um pouco mais no verde, também.

Afastou-se um pouco, para ver melhor.
Um jorro de água cristalina ocupava todo o centro do quadro, precipitando-se da pequena cascata e desdobrando-se em múltiplos fios de espuma branca. O verde, aquele imenso verde dos trópicos, enchia todo o espaço circundante, rodeando a água, emoldurando a cascata. Aqui e ali, algumas copas de palmeiras emprestavam um pouco de amarelo à vegetação, numa composição garrida, plena de cor e movimento.
Reflectindo o céu, a água misturava o branco e os vários tons de azul, adivinhando uma atmosfera quente, húmida, pejada dos cantos dos pássaros e zumbidos dos insectos. Seria África, talvez. Ou na Amazónia.
Sorriu, feliz com a sua obra.
A escolha do título ficaria para depois.
Naquele momento, queria simplesmente saborear a tristeza.

Terminar um quadro era - sempre sentira isso, vá lá saber-se porquê – perder um pouco de si próprio. Estavam ali, impregnados na tela, muitos dias da sua vida, durante os quais respirara toda a sua imaginação, combinara cores, vislumbrara um cenário inexistente e... do nada, de uma tela branca e informe.... dera-lhe vida, fazendo nascer um mundo de cor. Terminar um quadro era assumir que a sua criação, como um filho, ganhara vida própria, independência. A ele, nada mais restava que limpar os pincéis e afastar-se, deixando a sua obra respirar por si própria, livre dos afectos do seu criador.

- Está muito bonito...
Ele não a sentira aproximar-se.
- Ainda bem que gostaste... sinto que já estive naquele local, junto daquela cascata...
Ela encostou-se a ele e assim ficaram em silêncio, a ver a água jorrar da cascata, emoldurada pelo verde-amarelo das palmeiras.
- Onde viste esta paisagem ? – quis ela saber.
- Não sei... creio que nunca a vi, realmente... mas sonhei muitas vezes com ela...

Ela abriu um pouco as madeiras e um jorro de luz quente inundou o pequeno estúdio.
- Está muito calor, lá fora? – perguntou ele.
- Está sim... a tempestade de areia teima em não terminar... já lá vão dois dias e ainda nem sinais de acalmar...

Lá fora, a areia do deserto fustigava impiedosamente as paredes exteriores da casa. Naquela altura do ano, era normal; os ventos do norte galgavam as escarpas e empurravam as areias do deserto, tapando tudo à sua passagem com um manto branco. Na pequena aldeia de Fashira, bem junto da fronteira da Líbia, os habitantes já estavam habituados a conviver com o pesadelo das tempestades de areia. No ano anterior, algures em Junho, uma tempestade forçara-os a permanecer dentro das suas casas por três semanas, isolados do mundo exterior.
A vida no deserto era assim, dura, implacável, com regras próprias.

Pegou na tela branca e colocou-a sobre o cavalete.
Fechou os olhos. Onde gostaria agora de estar ?

Com mão firme, atacou a superfície branca.
Uma montanha longínqua, com os cumes cobertos de neve, ia começar a nascer, na ponta dos seus dedos...